A delicada relação entre o arquiteto e seu cliente – Parte 3 de 3

É  num clima de certa insegurança, num misto de excitação e expectativa, que o cliente senta à frente do arquiteto para a primeira entrevista. Não raro traz um desenho em planta-baixa feito por um filho, parente, amigo ou por ele mesmo. Mais comumente, mune-se de revistas de arquitetura e decoração buscando mostrar os estilos e os ambientes que mais lhes agradam.

O arquiteto mais experiente não irá tomar essas atitudes como uma interferência no seu trabalho ou como uma afronta à sua criatividade. Ele entende que o cliente não quer uma colcha de retalhos (embora pareça) com o que está mostrando, mas que essa é a forma mais clara que ele tem de expressar, num primeiro momento, o seu gosto e os seus sonhos.

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Na verdade, normalmente o cliente não sabe exatamente o que quer. Embora munido de revistas ou de algum eventual desenho, não tem uma idéia clara de como tudo aquilo pode se transformar numa obra coerente, adaptada às suas necessidades. Mesmo o que pensa sobre as suas necessidades é flexível em função de fatores como custo. Mais facilmente, sabe o que não quer: aquela cozinha apertada, a disputa pelos banheiros, o conflito com a música e o ruído dos filhos adolescentes, etc.

É natural que seja assim, e é por isso mesmo que ele se encontra frente-a-frente com o profissional que deverá orientá-lo e ajudá-lo na busca do que, na verdade, lhe é essencial e do que lhe é acessório, de como fazer para satisfazer todas as suas expectativas, num projeto personalizado, dentro da sua capacidade de gastos e endividamento.

Os primeiros contatos do cliente com o arquiteto são fundamentais. É neles que são dados os passos mais importantes para a definição do projeto.

A primeira informação solicitada pelo arquiteto, que servirá de base para todo o resto do processo, é uma lista de compartimentos ou ambientes que o cliente imagina para a casa. Esta lista será traduzida para “atividades” a serem exercidas na casa, numa outra lista que se chama “programa de necessidades”. O programa de necessidades é, então, discutido brevemente com o cliente buscando-se racionalizar o projeto, agrupando ou separando atividades espacialmente.

Com base nisso, o arquiteto pode ter uma ideia da área de construção necessária e dos custos de projeto e construção envolvidos.

No entanto, tão ou mais importante que a informação do número de compartimentos e as atividades, é a descrição da forma e estilo de vida do cliente, como a casa é e pretende ser utilizada, costumes, relações familiares, etc. Isso mostra, na maioria das vezes, as reais necessidades do cliente: a inutilidade de um salão de jogos que nunca será utilizado, ou de um escritório que está fadado a servir de depósito; a necessidade de um bar junto a uma piscina ou de uma sala de música; o sub ou super dimensionamento de um dormitório ou muitos outros exemplos comuns em projetos menos discutidos.

Após isso, o arquiteto pode lançar o que se chama “partido arquitetônico”, ou seja, um desenho da primeira ideia do que será a casa em termos de área, distribuição dos compartimentos, circulação e fluxos, etc. Uma vez discutido e ajustado, o partido, como o nome diz, serve de ponto de partida para o desenvolvimento do projeto final.

O partido arquitetônico pode ser ajustado, ainda, a traços de personalidade dos futuros moradores que ajudam a definir um estilo: uma arquitetura vazada, fluida, que extravasa para o exterior ou, ao contrário, intimista, voltada para o interior, uma obra que busca a solidez e a segurança, baseada no concreto, ou projetada com leveza, envidraçada, baseada na madeira? As alternativas vão-se excluindo ou justapondo à medida em que vão sendo identificados mais profundamente os traços dos estilos de vida.

Com base no partido arquitetônico vão-se desenvolvendo o estudo preliminar, ante-projeto, projeto, projeto executivo (para aprovação nos órgãos públicos), projetos complementares (elétrico, hidráulico, etc.) e, finalmente, detalhamento.

A remuneração do trabalho do arquiteto é calculada, normalmente, como um percentual do custo estimado da construção. Para isso existem tabelas que mostram os custos médios por metro quadrado de construção, para padrão alto, médio e baixo em cada região do país. Assim, como a economia estável, pode-se ter uma estimativa bastante real do custo de uma construção. O percentual referente ao trabalho do arquiteto é objeto de uma outra tabela dos órgãos de classe e varia de acordo com o serviço contratado.

A maciça informatização dos escritórios de arquitetura fez com que a geração dos desenhos de um projeto se tornasse mais rápida, mais integrada entre os profissionais envolvidos. Modificações ao longo do projeto são possíveis, mas são tratadas como alterações que vão onerar o custo inicial.

Um projeto rico no detalhamento, por exemplo, reduz ao mínimo os problemas e improvisações no canteiro de obras. Um projeto bem especificado, orçado e detalhado evita gastos desnecessários e desperdício dos materiais construtivos. Existe, portanto, uma boa razão para serem contratados os serviços adicionais às plantas básicas de aprovação nas prefeituras: a economia, o controle sobre a construção, a qualidade e beleza da arquitetura e a satisfação plena do cliente.

Os custos de um projeto sempre podem ser negociados. O arquiteto poderá avaliar a complexidade de um determinado trabalho e ajustar o seu preço de acordo com ela: uma casa rústica de praia exigirá menos do seu tempo do que uma residência nos Jardins, em São Paulo, com uma área equivalente.

Como já foi dito, reduções de custos significam projetos mais simples. Existem clientes que buscam profissionais para a elaboração apenas das plantas necessárias para aprovação nos órgãos oficiais. São daquelas pessoas que confundem e desconhecem a atuação do arquiteto e não tratam a sua obra como um projeto de arquitetura, mas como um projeto de construção.

Disso se aproveitam os “projetistas” de fundo de quintal. A disseminação do uso de computadores para a elaboração dos desenhos de arquitetura facilitou o aparecimento de “profissionais” que anunciam nos jornais a elaboração de “projetos” por computador a preços muito baixos. A maioria é composta de “desenhadores de plantas”, que copiam e adaptam plantas padronizadas, sem o conhecimento básico de obras arquitetônicas.

As nossas cidades são maciçamente povoadas dessas construções que as enfeiam e que atendem apenas minimamente às necessidades dos seus proprietários. Enganam-se os que pensam que são obras mais baratas do que as de um arquiteto. Na maioria das vezes, um arquiteto poderá projetar uma obra muito melhor, a um custo menor ou equivalente. A economia proporcionada pela eliminação do desperdício, pela escolha adequada e criteriosa dos materiais, pelo detalhamento que evita a quebra e reconstrução de partes mal resolvidas, pelo alívio, garantia de qualidade e tranqüilidade do proprietário, compensa os custos do projeto de um arquiteto.

Esse arquiteto, de quem o cliente se apropria como o “seu” arquiteto, é quem vai dar a solução para a casa sob medida, aquela obra que representa tudo o que o cliente sempre sonhou, que é o que ele mesmo teria feito, se soubesse como. Uma verdadeira “obra de arquiteto”. Afinal, passa pelas mãos do profissional um bem que ficará nas mãos do cliente o resto da sua vida.

Fonte: www.forumdaconstrucao.com.br

Imagem: http://delas.ig.com.br

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