Residência, Ubatuba, SP – Angelo Bucci

Este semestre tive a oportunidade de assistir uma palestra do Angelo Bucci quando ele veio para Florianópolis. Um dos projetos que ele nos mostrou foi essa residência em Ubatuba, São Paulo. Encontrei um artigo sobre essa casa no Arcoweb, o qual transcrevo aqui na íntrega:

Apoiada em três pilares, casa emerge da mata atlântica

Dois dos três pilares estão no volume mais perto do mar

Angelo Bucci trabalha com vagar, o desenvolvimento de seus projetos é lento. Assim é também sua fala, pausada, e os gestos, morosos. É ainda sem pressa que ele percorre a pé, diariamente, os cinco quilômetros que separam sua casa de seu escritório, o SPBR Arquitetos. Contudo, lembrando a fábula da lebre e da tartaruga, ele é sempre o primeiro a chegar no ateliê, que divide com poucos colaboradores.

Além de ajudar na concepção dos projetos, os arquitetos que compartilham a bancada com Bucci dão continuidade ao desenvolvimento dos trabalhos nos períodos em que ele está ausente, dividido entre o ensino e a prancheta. Neste semestre, em especial, sua vida acadêmica foi mais intensa: ele transitou semanalmente na ponte aérea entre o Brasil e os Estados Unidos, alternando aulas na FAU/USP e na Universidade de Austin, no Texas. “Sou uma vítima da globalização”, diz em tom de brincadeira, antes de mostrar a casa em Ubatuba, seu mais novo projeto concluído.

“Eu não poderia ter feito esta casa se não tivesse realizado antes a de Ribeirão Preto”, ele afirma.

A casa vista a partir da praia: o esforço estrutural fica camuflado pelas árvores

Isso se explica, pois um ramo da linha de raciocínio de Bucci se ancora no desenvolvimento de uma linguagem arquitetônica nascida do virtuosismo estrutural. A residência em Ribeirão Preto possui um conjunto de vigas que estrutura as duas lajes por cima, utilizando tirantes. “Eu não inventei nada. No MAM, por exemplo, parte da estrutura já é assim”, ele diz, mencionando uma das principais obras de Affonso Eduardo Reidy. “E no Masp também”, retruco, recorrendo a uma imagem mais próxima, pelo menos fisicamente. “No Masp também…”, ele responde e permanece alguns segundos em silêncio.

Certamente Reidy povoa mais o imaginário de Bucci do que Lina Bo Bardi, e lembrar do museu carioca para falar da casa em Ubatuba é um sintoma disso. Ao tocar o solo em poucos pontos e suspender-se, independente da topografia, a residência localizada em uma encosta da praia do Tenório torna-se parte da maneira brasileira de criar um abrigo para o homem frente aos terrenos acidentados. Esse raciocínio foi colocado em prática na grande escala poucas vezes – uma delas é o projeto da Universidade de Vigo, na Espanha, de Paulo Mendes da Rocha. Seu laboratório mais usual é a casa unifamiliar, partido em que diversos arquitetos – de Joaquim Guedes a Marcos Acayaba – exercitaram a combinação de apoios reduzidos e mínimo impacto ambiental. Entre esses projetistas estão Reidy e Lina, que lançaram mão dessa lógica em suas próprias moradas, desenhadas quase simultaneamente, entre 1950 e 1951, respectivamente. Além do partido, as casas possuem algumas semelhanças (o vazio interno, por exemplo) e muitas diferenças (pilares metálicos x concreto; cobertura duas águas x borboleta; acesso por cima x por baixo etc.).

O programa é fragmentado em três volumes de concreto atirantados em conjunto de vigas da cobertura

Bucci se afasta desse repertório residencial: é na concepção estrutural de Lina e Reidy para museus que ele vai buscar elementos. Em Ubatuba, são apenas três pontos de apoio – pilares gigantescos para uma casa, que variam entre 70 centímetros e um metro de diâmetro e apoiam um conjunto de vigas na cobertura, na qual estão pendurados os três volumes independentes. Essa divisão do programa faz parte do repertório de Bucci, como nas casas de Ribeirão Preto, Carapicuíba e Santa Teresa. Também faz lembrar alguns projetos de Artigas, como as casas Heitor de Almeida (1949), D’Esteni (1950) e Mário Taques Bitencourt (1959), cujos volumes se ligam por rampas (Bucci utiliza escadas que ecoam as obras de Maurits Escher). No caso de Ubatuba, o programa destinado a um casal com filhos adultos foi dividido em três blocos, cada um com dois pisos e a cobertura. No volume próximo da garagem ficam as dependências de hóspedes no pavimento mais baixo e a churrasqueira no superior; no do meio estão os quartos dos filhos embaixo e a sala acima; por fim, mais próximo da praia estão o quarto do casal (no andar inferior) e a varanda de acesso em cima, uma espécie de mirante. A fragmentação possibilita que todos tenham vista para o mar.

O acesso que contorna a piscina da cobertura aludem à Villa d’Alva, de Koolhaas

A fragmentação em volumes possibilita que todos os ambientes tenham vista panorâmica

O trecho do conjunto de vigas mais próximo do mar inclina-se para acomodar o piso da varanda

A varanda de acesso pode ser fechada ...

A concepção da casa leva em conta um raciocínio construtivo: o arquiteto imaginou construir os pilares e utilizar vigas metálicas na cobertura. Assim, não teria que usar escoras para concretar as vigas e lajes, o que seria feito na base da garagem (possuem modulação variada dessa dimensão). Sem as escoras, além de economizar o dinheiro de seu aluguel, o ambiente natural seria mais preservado. Mas a ideia foi inviabilizada pelo preço das vigas metálicas, orçadas com valor semelhante ao de toda a estrutura. Assim, a estratégia mudou: as vigas são de concreto e foram empregadas escoras. “Parte da vegetação foi cortada, mas foi muito pouco, em obediência à rígida legislação”, conta Bucci.

... com o brise do quarto principal

A última porção das vigas da cobertura é inclinada, de maneira a acomodar o terraço sobre o dormitório principal. No primeiro desenho, em vez da laje havia uma pérgola de madeira. Há um paralelo entre esse trecho inclinado e a casa de Reidy, coberta por telhado borboleta. E ele é reforçado pela presença do grande brise de madeira que protege o dormitório e pode ser inteiramente aberto com o auxílio de contrapeso, sendo posicionado no piso superior: a residência de Reidy também possui uma “grande boca” na parte em que o pavilhão suspenso está mais alto. O desenho da caixilharia de Bucci também demonstra o apuro e a criatividade do arquiteto, que desenvolve em cada projeto sistemas inventivos. Aqui, um grande esforço no detalhamento visa a fixação e a manutenção dos caixilhos sem a necessidade de andaimes.

Entre a concepção inicial e o projeto final, alguns elementos foram incorporados ao desenho, como os ambientes de depósito e de serviços, construídos sob a garagem e a piscina. O acesso pela cobertura, contornando a piscina, lembra a Villa d’Alva, de Rem Koolhaas. A paisagem deslumbrante, somada à massa arbórea que envolve a residência, provoca uma espécie de vertigem, como se estivéssemos em uma nave ou no convés de um navio. Estranheza semelhante à da piscina da casa Milan, de Paulo Mendes da Rocha, debruçada sobre a rua. “Nunca tive medo de altura, mas durante a obra eu tive alguns receios”, conta Bucci. “Quando venta e as árvores ao redor balançam, dá a sensação de que a casa é que está balançando.”

No dormitório principal é visível um dos tirantes, junto ao caixilho

Escadas lembram a obra de Esch

A churrasqueira fica sobre o apartamento de hóspedes

O pilar central apoia também a piscina e a escada que conecta os dois primeiros volumes e liga a casa ao terreno

Detalhe das aberturas dos dormitórios: os caixilhos foram fixados depois dos vidros

Texto de Fernando Serapião
Publicada originalmente em PROJETODESIGN
Edição 364 Junho de 2010
Fonte: Arcoweb
Advertisements

4 responses to “Residência, Ubatuba, SP – Angelo Bucci

  1. Pingback: Os números de 2010 – Blog Arquitete Suas Ideias « Arquitete suas ideias·

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s